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Thais AzevedoNeuropsicopedagoga

O vínculo e o alfabeto de olhares: a comunicação no autismo nível 3

Por Thais AzevedoPublicado em 08 de maio de 2026Última atualização: 25 de junho de 2026

Reflexões a partir das minhas vivências na AMA — Associação Amigos do Autista. Os nomes das crianças foram trocados por nomes fictícios para preservar sua privacidade.

“O olhar é um reforçador de comportamento. Do mesmo jeito que eles se expressam muito pelo olhar, eles absorvem muito do nosso olhar, mais do que os verbais. São bem sensíveis ao olhar”, disse uma das terapeutas da Sala 1. “Você vai ver, se eu encarar ele, ele vai continuar no parque, se recusando a subir para a sala, mesmo que eu continue chamando. Se eu der o comando, ele se recusar a subir e eu repetir o comando, mas não olhar diretamente nos olhos dele, ele entende que eu não estou reforçando esse comportamento e sobe junto com a gente.”

Na Sala 1 da AMA, temos 3 crianças de 9 a 11 anos, com 3 terapeutas. Eles trabalham com Mesa de Aprendizagem e Mesa de Descanso, rotacionando as crianças entre os terapeutas e entre as atividades a cada 10 minutos. A diferença para outras salas é o nível de suporte: na Sala 1, todos são autistas nível 3 e não verbais.

Autistas nível 3 necessitam de bastante suporte em atividades diárias como higiene e alimentação, além de apresentarem questões significativas de comunicação, interação social e comportamentos repetitivos. Em situações de estresse, podem apresentar comportamentos agressivos a si mesmos ou aos outros.

Aprendendo o alfabeto de olhares

Como os terapeutas sabem como a criança está se sentindo ou o que ela está querendo demonstrar? Aprendendo o alfabeto de olhares que cada uma daquelas crianças nos ensina diariamente.

Os assistidos da Sala 1 realizam atividades de pareamento, de tempo de espera, destampar canetas ou sessões de estímulo sensorial com massagem no corpo com bolinha. Eles também possuem um comportamento selecionado, trabalhado ao longo do período para ser minimizado, como se jogar no chão ou derrubar as coisas da mesa.

“Ela tem bastante dificuldade em esperar”, disse uma das terapeutas enquanto Helena fazia a atividade de esperar por 5 segundos repetidas vezes. A garota demonstrava estar ansiosa, repetindo estalos com a língua, vocalizando alto e movimentando o braço de forma estereotipada.

Uma das estereotipias de Theo é fazer com a boca um barulho semelhante ao de um gato. Esse comportamento, assim como tentar bater e derrubar as coisas, se intensifica mais perto da hora do lanche. “Ele vai ficando com fome e vai ficando mais agitado. É o jeito dele de mostrar pra gente que quer descer para comer.” Vale lembrar que cerca de 90% da serotonina, neurotransmissor ligado ao bem-estar, é produzida no intestino: se o intestino está inflamado ou não absorve os nutrientes necessários, é natural que a criança fique mais agitada que o habitual.

Na outra mesa, Miguel fazia bastante contato visual com uma das terapeutas, enquanto ela preparava sua próxima atividade. Depois de olhar nos olhos do terapeuta por alguns minutos, como quem quisesse dizer algo, ele puxou a mão dele, observou atentamente os dedos e, lentamente, juntou suas mãos às do terapeuta — que entendeu que ele estava pedindo a brincadeira de palmas (“soco soco, bate bate…”).

Cada gesto quer dizer algo

A Sala 1 exige profissionais extremamente dispostos a aprender diariamente o alfabeto de olhares de cada criança. É preciso estar disposto a criar vínculo e enxergar, em cada assistido, que aquele olhar, aquele movimento brusco, aquele grito ou aquele silêncio não é birra! É uma tentativa de se comunicar e expressar o que estão sentindo. Cada olhar, cada movimento, cada som, cada postura quer dizer alguma coisa — é o jeito dessas crianças se comunicarem. E elas sabem que seus queridos terapeutas vão entender. E eles entendem, com todo amor, paciência, atenção e um vínculo extremamente profundo.

Obrigada, Sala 1 — assistidos e terapeutas — por nos ensinarem, todos os dias, a prestar atenção nos detalhes maravilhosos do mundo!

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