Reflexões a partir das minhas vivências na AMA — Associação Amigos do Autista. As falas abaixo são reais, mas os participantes não são identificados, para preservar sua privacidade. (Nas falas iniciais, “T” sou eu.)
J — “Eu tenho 37 anos.”
T — “Que interessante! Eu também!”
J — “Então você nasceu em 1987 que nem eu!”
T — “Isso!”
F — “Eu tenho 37 anos, mas eu nasci em 1988.”
J — “Ah, então você fez aniversário esse ano. Que dia?”
F — “Dia 4 de janeiro.”
J — “Eu não pude te dar parabéns porque era um sábado.”
Ao comentar sobre este meu primeiro dia na “Roda de Conversa dos Adultos – Assistidos Nível 1 de Suporte” com conhecidos neurotípicos, ouvi: “Mas esse assistido é muito inteligente! Muito mais que muitas pessoas que eu conheço! Ele realmente precisa de terapia?”. A princípio, achei o comentário preconceituoso; depois percebi que a pessoa simplesmente desconhece as dificuldades por trás de um autista nível 1.
Pouco se fala sobre isso, principalmente em adultos. Para muitos, o comentário “nem parece autista” vem até sem maldade, porque de fato desconhecem autistas sem manifestações físicas visíveis. O corpo pode não demonstrar, mas a mente de um autista nível 1 enfrenta questionamentos constantes e um jeito único de ver o mundo.
Não é porque não há uma dificuldade visível que ela não está ali. Essa dificuldade invisível é ainda maior, porque a sociedade tende a achar que ela não existe, e muitas vezes o autista é julgado injustamente. Dói ouvir coisas como “É frescura sua!” ou “Você precisa ser mais flexível”. A AMA os acolhe: diariamente, esses jovens e adultos participam de uma roda de conversa, mediada por terapeutas, sobre temas da vida adulta que podem ser desafiadores para eles.
Abaixo, algumas das principais questões que aparecem em autistas de nível 1, ilustradas por falas dos assistidos.
Rigidez cognitiva e pensamento literal
Dificuldade em adaptar-se a mudanças, com padrões de comportamento rígidos, e uma compreensão mais direta e literal das expressões.
“Eu fiquei muito nervoso porque você falou que eu poderia ter um animal de estimação se eu quisesse e disse que eu poderia ter um leão! Mas o leão é um animal selvagem! Não é doméstico! E é regra no meu prédio! Não pode ter animal! Então para de me perguntar se eu gostaria de ter um!”
“Nunca que eu usaria papel toalha do banheiro para embrulhar minhas bolachas se eu não tivesse um guardanapo! Ele vem do banheiro! É outra coisa! Não se coloca coisa de banheiro na comida!”
Hiperfoco e conexões pessoais
Relacionar o assunto falado com experiências pessoais, mesmo que pareça fora de contexto para os outros — mas que faz total sentido para quem fala.
“Por falar em leão, eu gosto muito de lutas. Vocês sabiam que foi criado até um desenho sobre o Mike Tyson, que era um lutador? E ele tinha um leão de estimação.”
“Por falar em comida mexicana, eu comi uma vez quando fui a uma lanchonete, quando fui assistir a um filme no cinema em 2019.”
Filtro social
Um excesso de sinceridade e honestidade, com dificuldade em filtrar as palavras em situações sociais.
“Muito bom. Eu gostei bastante da sua história sobre o seu animal de estimação que morreu, mas da próxima vez, foca em responder as perguntas.”
Formas padronizadas de demonstrar interesse
Eles aprenderam que é educado demonstrar interesse, com perguntas ou frases exclamativas, e colocam isso em prática.
“Quando a calopsita da minha tia morreu, eu fui a um churrasco na casa dela pra prestar condolências, porque a gente precisa fazer isso quando alguém perde alguém que gostava muito.”
Dificuldade em nomear coisas
“Eu não sei o que é sushi. É aquele arroz com coisa preta em volta que parece um papel?”
“Eu não gosto de massa.” — “Mas você não gosta de macarrão, pizza e pastel?” — “Gosto!” — “Então… isso são tipos de massa.”
Compreender questões da vida adulta
Conceitos do mundo do trabalho e da vida adulta podem ser desafiadores de entender.
“É sério que um aluguel de uma casa pode custar mais de 1000 reais?! Achei que custava uns 100.”
Resolver conflitos com outras pessoas
Por mais simples que pareça para neurotípicos, conversar com alguém para resolver um desentendimento pode ser muito desafiador.
“Se não desse certo ir conversar com a pessoa, eu iria desabafar com vocês, pra ver se vocês poderiam me dar uma ideia do que falar e de como resolver.”
Todos eles têm sonhos
Todos têm empatia, me cumprimentam com um sorriso, lembram do que eu disse em outras rodas. Todos trabalham ou estudam e realizam suas funções básicas com autonomia. E todos têm sonhos:
“Eu gastaria meu dinheiro para ir a um lugar relaxado, com natureza e animais.”
“O que eu gostaria mesmo era de fazer uma viagem para a Europa.”
“Eu usaria meu dinheiro pra comprar um terno e uma gravata, que é uma coisa que eu sempre pensei em comprar. Sempre!”
“Eu compraria algo para poder levar na casa dos meus amigos para poder ajudar eles.”
Diariamente, junto aos terapeutas da AMA, eles trabalham para entender e diminuir os efeitos das suas “dificuldades invisíveis” — que, por mais invisíveis que sejam aos olhos, aparecem bastante no dia a dia. A evolução de cada um, com o passar das semanas, é extremamente visível. Para eles, para nós e para o mundo. Parabéns, jovens adultos da AMA!
Última atualização: 25 de junho de 2026.
