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Thais AzevedoNeuropsicopedagoga
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A importância da afetividade, do vínculo e do olhar individualizado na sala de aula

Thais AzevedoThais Azevedo11 min de leitura

Texto de Thais Azevedo da Rocha, publicado no livro “Os Desafios do Professor — entre as 4 paredes de uma sala de aula”.

Depois de 12 anos de trabalho voluntário semanal em um abrigo infantil no Jardim Ângela, na periferia de São Paulo, fui trabalhar em um colégio particular de mensalidade altíssima. A pergunta que eu mais ouvi foi “Como é essa diferença para você, que trabalhava com crianças carentes e agora trabalha com crianças de famílias ricas?”. Mais do que a diferença, o que mais impressiona é a semelhança. As crianças de escola de elite são tão ou mais carentes que as do abrigo no Jardim Ângela.

Claro que não estou falando aqui de carência financeira, geladeira farta e viagens para a Disney. Estou falando da carência emocional e afetiva. Nos últimos 10 anos, trabalhei em diversas escolas particulares e é triste ver que, apesar da condição financeira favorável, essas crianças sentem muita falta de uma escuta ativa, de um colo, de um afeto, de alguém que as olhe nos olhos e se interesse pelas histórias que elas têm para contar.

A “culpa” pode ser do excesso de trabalho dos pais, da agenda cheia de atividades, do exagero de tempo na frente de telas, tanto dos pais quanto dos pequenos, de mães que não estavam preparadas para ser mãe, de possíveis questões psicológicas ou psiquiátricas, de uma família desestruturada, da professora do ano passado e por aí vai.

A lista de culpados é imensa! É muito fácil colocar a culpa em uma lista infinita de fatores. O fato é que, quando o aluno aparece, 6 horas por dia, na sua sala de aula, todos os dias da semana, por um ano, não importa muito de quem é a culpa. Ele passa a ser responsabilidade sua. Muitos professores colocam a culpa de uma criança ser difícil, em todos menos neles mesmos. O que realmente estamos fazendo para acolher, escutar e entender aquele aluno?

O maior desafio do professor

Para mim, um dos maiores desafios do professor na sala de aula é conseguir, no meio de tantos planejamentos extensos, uma lista gigante de atividades e salas de aulas lotadas, encontrar espaço, tempo e energia, para entender cada aluno como único, para escutar suas histórias sobre o final de semana com um interesse verdadeiro, para olhar no olho de cada um, conversar, entender por que está agitado ou desatento, saber sua cor favorita ou o que pediu para o Papai Noel.

Parecem coisas bobas, “de criança”, mas se é importante para a criança, é importante! Um aluno bem emocionalmente, acolhido, com vínculo afetivo dentro do ambiente escolar, melhora não apenas o comportamento, como também o desenvolvimento acadêmico. Ao entender o que cada aluno pensa e está tentando demonstrar, é possível reconhecer seus sentimentos, acolhê-los e adequá-los a sala de aula. Quando se estabelece um vínculo entre o professor, o aluno e a aprendizagem, aumenta o interesse da criança pelo conteúdo ensinado, facilitando seu aprendizado.

O que a ciência diz sobre a aprendizagem socioemocional

Nos Estados Unidos, o Programa de Aprendizagem Emocional (SEL – Social and Emotional Learning), foi implantado em algumas escolas a partir de 2011, com o objetivo de ensinar aos alunos habilidades de inteligência emocional.

Segundo Goleman, (2012, p.11), grande parte do sucesso do SEL deve-se ao impacto na modelagem do circuito neural da criança, ainda em fase de desenvolvimento.

O córtex pré-frontal é responsável por viabilizar o comportamento adaptativo do indivíduo, além de estabelecer características da personalidade da criança. Estimulando esta área do cérebro por meio do SEL, com atividades voltadas ao desenvolvimento socioemocional, observa-se como resultado uma melhora nas funções executivas que controlam a memória funcional e a inibição do comportamento impulsivo, já que esta área do cérebro também é responsável pela autoconsciência e autorregulação. Melhorando a atenção e a memória funcional, os alunos aprendem melhor e de forma mais tranquila.

Sobre o impacto do SEL, Goleman (2012, p11.) conclui que 50% das crianças tiveram melhora nas pontuações de desempenho e mais de 38% aumentaram suas notas. Além disso, as ocorrências de mal comportamento diminuíram em 28%, as suspensões em 44% e outros atos disciplinares caíram 27%. Notou-se também que 63% dos alunos apresentaram um comportamento mais positivo.

O aluno em sala de aula é um indivíduo com corpo, inteligência e emoções. Três aspectos que não podem ser separados. Para um bom desenvolvimento cognitivo, social e afetivo, a criança tem que ser acolhida como um todo.

“Eu não sou terapeuta de criança”

Já ouvi professores dizendo “eu não sou terapeuta de criança, meu trabalho é alfabetizar”. Você já tentou alfabetizar uma criança que não dormiu bem? Que teve pesadelos? Que os pais estão viajando a um mês e o aluno não sabe quando eles voltam? Já tentou alfabetizar uma criança de pai ausente que aparece quando quer? Ou filhos de pais que comparam os irmãos? Ou uma criança de autoestima baixa porque foi julgada como ruim, burra, chata ou inútil por um familiar, por um colega ou até mesmo por um professor?

Muitos professores que eu conheci na minha carreira acham essas rodas de conversa, projetos socioemocionais ou ouvir o que a criança fez no final de semana uma grande perda de tempo. Eles certamente estão na profissão errada. Não adianta querer uma turma tranquila, interessada e que aprende com facilidade, se os alunos não estão bem emocionalmente e, principalmente, se você não se interessa por eles.

M.M.J.: o aluno “difícil” que só precisava de vínculo

Há alguns anos, tive um aluno sul-africano, que veio morar no Brasil com a família por 4 anos, por conta do trabalho do pai. Ao chegar na escola, foi logo julgado na entrevista por um funcionário da escola, por ter dito que não queria fazer a redação (o menino tinha dificuldade para escrever) e em tom não formal. Este funcionário apresentou à equipe de professores o caso deste aluno recém-chegado. Disse tratar-se de uma criança “difícil, desrespeitosa e sem educação”.

M.M.J. não era da minha turma. Comecei a conversar com ele em horários de intervalo. Criamos um vínculo. A mãe disse que ele estava com bastante resistência para aprender Português e que, como ele gostava muito de mim, se eu não queria tentar dar aulas de português para ele.

M.M.J. chegou em sua primeira aula fingindo estar morrendo de fome, fechando os olhos para parecer que iria desmaiar. Falei que eu iria pagar um pão de queijo e um chocolate para ele na cantina. Os olhos abriram, junto com um sorriso largo. A condição seria ele fazer o pedido em português, com a minha ajuda.

Em um outro dia, ele entrou na sala com uma bola de futebol, chutando entre as carteiras, bastante agitado. Adaptei a aula e fiz um combinado. Fomos para a quadra jogar gol a gol. Se eu fizesse um gol nele, ele tinha que falar uma frase em português usando as palavras que eu escolhesse. Se ele fizesse gol em mim, eu falava uma frase em inglês e ele escolhia as palavras.

M.M.J. passou a gostar de Português. Em 6 meses, não precisava mais das aulas particulares. Em qualquer conflito, casos de bullying ou discriminação por racismo, ele me procurava para acolhê-lo. Em menos de um ano, estava adaptado à escola, à língua e tinha muitos amigos. Entender como ele funcionava, o que ele precisava, ouvir o que ele estava sentido fez toda a diferença nesse processo.

V.D. e o “fone mágico”

Você deve estar pensando. “Ah, mas com aluno particular é fácil! Como administrar isso em uma turma com 30 crianças?”. Vou colocar uma situação um pouco mais desafiadora:

Era dia de jogo da Copa do Mundo. 40 crianças entraram na minha sala para assistir ao jogo no telão. Todas com vuvuzelas e apitos. V.D. era meu aluno, TEA e com sensibilidade auditiva. Ele saiu correndo da sala, gritando e se escondeu em um lugar que eu ainda conseguia vê-lo. Eu estava sozinha. Não tinha como correr atrás dele. Fui até o corredor e gritei para ele que ele poderia voltar quando se sentisse mais confortável e que, enquanto ele se acalmava, eu ia tentar diminuir o barulho.

Combinei com as outras crianças que só iríamos usar as vuvuzelas e apitos na hora do gol. Todos concordaram e V.D. voltou para a sala. Eu carrego na minha mochila um fone de ouvido com cancelamento de ruído. Falei para ele que eu também não gostava de barulho e eu tinha um “fone mágico”, que era meu, que era muito especial, e que eu poderia emprestar para ele durante o jogo.

Com o ruído reduzido, V.D. assistiu ao jogo inteiro e, na hora da saída, foi correndo dizer aos pais, superfeliz, que “esse fone mágico mudou a minha vida”. Uma semana depois, ele apareceu para ver o outro jogo, com o seu próprio “fone mágico”, que carrega na mochila desde então, para dias mais agitados e barulhentos. Ele se concentrou durante o jogo inteiro e comemorou os gols assoprando vuvuzelas com os amigos. Graças a um olhar, a uma escuta, alguém para perceber que ele não era uma criança desatenta ou desmotivada e que era o barulho que atrapalhava sua concentração e socialização, ele é uma criança muito mais segura, feliz e, atualmente, alfabetizada.

J.F. e o direito de ser quem se é

Que cada criança é única, com seus medos, suas preferências, suas dificuldades e seus talentos e sua personalidade, isso pode ser um tanto óbvio e tema clichê de reuniões de formação de todas as escolas. Não é novidade. A questão é, o que nós, professores, estamos fazendo com essa informação? Qual nosso plano de ação para agir com cada criança?

Um caso muito especial na minha carreira de professora foi o do aluno J.F.: Um aluno bastante agitado, ansioso, bastante metódico, perfeccionista, amigo de todos e muito dedicado.

J.F., assim como eu quando criança, gostava muito de contar histórias sobre a sua vida pessoal e, tudo que via ou ouvia em sala de aula, rapidamente relacionava com algo de sua vida pessoal e queria compartilhar. Muitas vezes, acabava interrompendo explicações ou as falas dos colegas para dividir suas experiências. Sua memória afetiva era bem rica e detalhada.

Em várias situações com J.F., outros professores poderiam ter dito “Tá, resume aí sua história da vida”, “Falta muito pra acabar de contar?” ou até mesmo “Que criança neurótica!”. Por que eu não disse isso? Porque eu já fui uma criança bem parecida com o J.F. Eu passei anos escutando esse tipo de comentário dos professores. E isso machuca! E é algo que você leva para a vida toda!

No início do dia, quando as crianças estavam em um momento mais livre, perguntava a ele se ele queria me contar alguma “história da vida”. Depois de uma semana, eu não precisava mais perguntar. Ele já chegava contando. Compartilhar comigo as novidades de sua vida pessoal e suas ansiedades e preocupações o deixava incrivelmente mais calmo e focado ao longo do resto do dia.

A diferença está no vínculo

Se o aluno não está bem, o aluno não aprende. Se a criança vê em você alguém para confiar, alguém que demonstra se importar, alguém que reconhece seu valor nas pequenas conquistas, o aprendizado flui naturalmente.

Uma vez, disse em uma reunião de pais: “A coisa que eu mais faço aqui é ouvir, comentar, elogiar e dar bronca, nas horas vagas eles aprendem a ler e a escrever. E aprendem! E muito! E felizes!”

Saber a frase bonitinha de que “cada criança é única”, todo professor sabe. Mas e o desafio de realmente acolher todas as singularidades em uma sala de aula, com empatia, carinho e real interesse pelos alunos? Não é fácil. As salas estão cada vez mais lotadas, tanto na rede pública quanto nas escolas particulares. Mas e se você fosse aquela criança? E aquela outra? E aquela mais quietinha? E aquela que ninguém quer brincar e todo mundo fala mal?

A principal semelhança entre todas essas crianças é a necessidade de vínculo, de ser ouvido com interesse, com “olho no olho”, por alguém que quer saber ainda mais sobre eles. A necessidade de ser aceito com suas peculiaridades e não ser julgado por elas. A necessidade de compreensão, afeto e aceitação. Aceite sua sala de aula, aluno por aluno, cada um do seu jeito e faça a diferença!

Referências

  • GOLEMAN, D. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
  • GOLEMAN, D. O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
  • FERREIRA, Gabriella Rossetti; RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. A importância da afetividade na educação. Doxa: Rev. Bras. Psico. e Educ., Araraquara, v. 21, n. 1, p. 88-103, jan./jun. 2019.
  • AMTHOR, Frank. Neurociência Para Leigos. Starlin Alta Editora, 2017.

Última atualização: 25 de junho de 2026.

Foto de Thais Azevedo

Sobre a autora

Thais Azevedo

Neuropsicopedagoga em São Paulo. Pós-graduada em Dificuldades na Aprendizagem e em Neuropsicopedagogia Clínica · Pedagoga desde 2015.

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